Fábio Almeida

tão brasileira magia

_ Vivemos na terra, no país das artes mágicas, e o senhor se recusa a acreditar em magia!* Meu amigo, o senhor está na cidade e não vê as casas.

_ Como assim?

  _ Creia que há magias a cada canto; olhe: como é que empregados públicos, e homens de todas profissões** e condições vivem, ganhando cinco, e gastando cinquenta em cada ano? Só por magia. Como é que um pobre, miserável***, há dois ou três anos se ostenta de súbito milionário? Só por magia. Como é que o Brasil festeja todos os anos o aniversário da sua grande liberdade da constituição**** e vive, sem exceção de um dia, fora da lei constitucional e em plena ditadura, ou sob a vontade arbitrária, absoluta de quem está de cima? Só por magia. Acredite-me; há arte mágica na vida, na riqueza, no procedimento e na fortuna de muitos; há arte mágica na vida, na riqueza, nas misérias da administração, nas mentiras constitucionais do governo, nas zombarias feitas à opinião, no impune desprezo do povo, e até na paciência ilimitada dos que sofrem, há arte mágica…
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   Pra quem não conhece, essa não é uma crônica do Jabor, Mainardi, Fernando Veríssimo, Boris Casoy, Joelmir Beting…
   Esse texto é de um brilhante médico carioca de classe alta, quase ufanista, que de tanto amor pelo país, resolveu deixar a carreira e ingressar na política, elegendo-se deputado e senador, com o único propósito de criar e aprovar leis que beneficiassem todas as classes sociais.
  Infelizmente, esse médico não conseguiu tornar realidade nenhum de seus intentos, porque encontrou na própria política, a principal barreira para tornar as leis mais transparentes e fazê-las cumpríveis.
  Tendo o dom também da escrita, tornou-se um dos maiores escritores do país, deixando seus registros em forma de ensaios, peças teatrais e principalmente, livros.
  Infelizmente, devido às constantes críticas à forma de governo, à política praticada no país, e às falcatruas dos homens públicos, o médico/escritor foi condenado a morrer à míngua, preso num sanatório, considerado louco.
  Seu nome: Joaquim Manoel de Macedo, autor do texto acima, extraído de seu A luneta mágica, de 1869,  há cento e quarenta anos.
  Nossa!
  Que pena ele não estar aqui, para ver quanta coisa mudou...
  
  
                                    
*    … se arreceia de introduzir nela obras de magia!
**   … misteres
***  … farroupilha
**** …constituição libérrima.
                                  (do original) 
 
Fábio Almeida
Os Impublicáveis
               
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