O que faz o texto é o seu movimento.

Entrevista com Ibrahima Gaye

Ibrahima Gaye, nascido no dia 03 de outubro de 1975, em Dakar, capital do Senegal. Veio para o Brasil em 1998, a partir de um convênio firmado entre os governos do Brasil e Senegal, o qual lhe garantia uma bolsa de estudos no Curso de Administração de Empresas na UFMG. Abandonou o curso em 2001, porque já se via tomado por empreendimentos relativos à cultura africana. Fundou a “Casa África”, associação que hoje dirige, difundindo, divulgando e preservando a cultura africana em todas as suas formas de manifestação, através de eventos e trabalhos socioeducativos, realizados Brasil afora.

Barroso da Costa – Lembro-me de você na Federal, já que fizemos o ciclo básico juntos. Você veio do Senegal formado em Economia, área na qual, inclusive, já havia sido premiado nacionalmente. O que o desligou da Academia, levando-o à movimentação cultural?

Ibrahima – Na verdade, foi um conjunto de fatores. Quando cheguei ao Brasil, senti algo inédito: desembarquei no aeroporto do Galeão e, embora soubesse que o Brasil possuía a segunda maior população negra do mundo, não vi qualquer indivíduo que me remetesse à África naquele saguão. Somente vi um negro quando entrei no banheiro e ele lá estava fazendo a faxina. Neste momento, senti um arrepio, que já me anunciava todo o preconceito velado que impera no Brasil. Foi o marco inicial de meu engajamento numa cruzada pelo resgate das tradições e da cultura africana neste Brasil, onde vi que a população negra não possuía consciência de seu valor histórico, o que era causa de sua baixa estima. Como dizia o grande filósofo africano, Djibril Tamsir Niane, “um povo sem passado é um povo sem memória”. Desde então, progressivamente, fui me envolvendo com projetos culturais, até que, em 1999, passei a dirigir o “Expresso África”, primeiro bar dançante africano em Belo Horizonte, que durou até 2001. De 2001 a 2002, levei adiante o “Africando”, criando em seguida – 2002/2004 – o “Africando Itinerante”, com festas temáticas periódicas, que levavam a cultura africana por todo Brasil. No verão de 2003, quando estava com o “Africando Itinerante” em Trancoso/BA, fui levado a algumas reflexões que me conduziram ao projeto “Casa África”, tornado realidade em 2004, enquanto um centro que permite a qualquer indivíduo, independentemente de cor ou crença, ampliar seus conhecimentos acerca do continente que é o berço da humanidade. Neste caminho, há diversos percalços, já que quase não há documentos acerca da influência africana no Brasil, o que determinou um corte na História, lembrando-me aqui de um provérbio africano, segundo o qual “enquanto não há leões historiadores, a glória da caça irá sempre para o caçador”. Em suma, a revelação da verdadeira História depende da participação ativa da população negra, principalmente pelo viés da Educação. Neste sentido, participei de projetos junto a escolas, transmitindo a cultura africana a crianças, adolescentes e professores, dando efetividade à Lei nº 10.639, que determina a valorização da História Negra nas instituições de ensino, com noções da diversidade cultural. Percebi, nesta oportunidade, a necessidade de quebrar estereótipos, romper as barreiras que impedem a população negra de desenvolver plenamente suas potencialidades e, assim, construir uma identidade forte.

Barroso da Costa – Vamos falar dessa percepção com mais calma. Você tocou num ponto crucial para nós brasileiros, nosso preconceito racial, que é tão estudado por sociólogos. Fale-me de como vê o preconceito racial no Brasil.

Ibrahima Gaye – É, de fato, um assunto muito delicado, mas vejo como uma tremenda cara-de-pau afirmar-se a ausência de preconceito racial no Brasil. Após a abolição da escravatura, doaram-se terras a diversos europeus, que vieram fincar raízes no Brasil. Enquanto isso, os africanos que até então carregaram o país nas costas – literalmente –, viram-se abandonados, sem condição de iniciar uma nova vida após séculos de trabalhos forçados. Queimaram-se os documentos que indicavam as origens dos afro-brasileiros escravizados, destruindo sua possibilidade de criar uma identidade. Tais eventos fatalmente colocaram os negros, mais uma vez, sob o jugo do opressor. Sem identidade própria, tiveram de apoiar-se na que lhes era conferida pelo branco que os explorava, acatando a condição subserviente que até hoje nos encerra em guetos e favelas, retirando-nos, veladamente, a condição de acesso legítimo a boas colocações, bons empregos, boa formação etc. Assim, não há meios de crescimento ou afirmação, já que é muito difícil encontrar negros com cargos que lhes permitam a promoção e valorização de sua cultura. Muitas vezes, se lá estão, se “embranquecem”. No Brasil há oito anos, até hoje sofro preconceitos: se ando na rua pela madrugado, não raro as pessoas mudam de passeio… Lembro-me do leão, símbolo do Senegal, que, ao andar pela floresta, acaba afugentando todos os animais menores.

Barroso da Costa – Qual o caminho você apontaria como sendo o mais eficaz na tentativa de alterar esta realidade social?

Ibrahima Gaye – A busca de uma sociedade mais justa não pode ser tida como utopia, depende do engajamento de todos. O racismo é uma construção coletiva, sedimentada ao longo de séculos. Em razão disso, encontra-se arraigado nos indivíduos, havendo de se promover uma revisitação efetiva da história que nos foi mal contada, no Brasil, na África ou no mundo. Nossas raízes devem ser expostas segundo a nossa versão, livre dos estereótipos que já critiquei, e que foram criados pelos opressores, os quais sempre nos contaram a dita história oficial. Por exemplo, há teses cientificamente respeitadas que indicam que a civilização egípcia era negra, o que foi “embranquecidamente” transformado, conforme os interesses dos opressores. Enfim, o que importa é o sentimento individual de indignação, que, ao longo de muito tempo, poderá transformar este preconceito, potencializando a emersão de uma nova cultura e civilização, em que as diferenças sejam reconhecidas e respeitadas.

Barroso da Costa – Deixe, portanto, seu convite para este engajamento.

Ibrahima Gaye – Convido a todos para conhecerem a “Casa África”, onde poderão ter acesso a cantos e encantos da História da África, contada por africanos. Fica na Rua Paraíba, 966, na Savassi, Belo Horizonte, CEP 30.130-141, tel.: (31) 3234-4241, www.casaafrica.com.br. Termino com a seguinte frase, dita por Alioune Diop na abertura do 1º Festival Mundial das Artes Negras, acontecido no Senegal, no ano de 1966, quando declarou: “Trata-se essencialmente de criar oportunidades às comunidades negras do mundo inteiro para que se unam, a fim de revitalizarem sua cultura, sua criatividade, a fim de assegurarem o equilíbrio e o desenvolvimento harmonioso da sociedade internacional. Pois, também cabe aos nossos povos, junto a todos os outros povos do mundo, a responsabilidade de gerir o mundo, que constitui um bem comum”. 

Entrevista realizada em agosto de 2007 para a edição zero da revista Os Impublicáveis.

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