Zacarias está em seu quarto esperando seu amigo Rogério. Deitado na cama pensa no curta que irão produzir para um concurso promovido por escolas particulares do ensino fundamental. Ele está na oitava série e tem as melhores notas da turma. Rogério chega, veste o uniforme do time de futebol juvenil que treina.
“Marcou algum gol hoje?”
“Nada. Arrumaram um zagueiro de dois metros, o cara é uma muralha.”
“Pensei em um título: A Criação.”
“Tinha pensado em Bastardos.”
“Este também é bom. Acho melhor deixar para o final.”
“Meu tio emprestou a câmera.”
“Ele te ensinou como usa?”
“Ensinou. Vamos precisar de dois vídeos para editar o filme.”
“Isso a gente já tem. A primeira cena pode ser uma explosão, como a rosa de Hiroshima.”
“A última pode ser uma maçã podre.”
“Só uma coisa me preocupa. Como vamos filmar os caralhos, cus e bocetas? isso não dá para deixar de fora.”
“A Ana Alice falou que ela e sua amiga estão dispostas a se deixarem filmar, desde que não apareçam os seus rostos nem seus nomes.”
“Ótimo. Como é esta amiga dela?”
“É uma negrona, gostosaça.”
“Deus é pai.”
“Mas ela não quer que a gente filme o cu dela, a Ana falou que o dela pode. E achou o máximo a sua idéia de enfiar o talo de uma rosa vermelha, deixando a flor para fora, na sua boceta.”
“Pede para ela raspar tudo e para a mulata deixar crescer bem.”
“Onde vamos filmar?”
“No galpão do pastor Otávio, as chaves ficam com minha mãe, de vez em quando ela guarda o carro lá.”
Zacarias pega algumas folhas de ofício na gaveta do criado, uma lapiseira e um baseado na mochila.
Rogério pega uma bíblia de bolso na mochila que Zacarias acabou de jogar no chão.
“Pra quê você anda com essa bíblia rasgada na mochila?”
“É porque eu uso as folhas dela para enrolar o beck. É a melhor seda que existe”.
Zacarias acende o baseado e começa rabiscar as folhas.
“Meu caralho, como é o maior, deve aparecer primeiro, depois é sua vez.”
“Quem disse que o seu é maior.”
“Nunca encontrei um pau maior que o meu.”
Baixam as calças e medem. O pênis de Zacarias é cinco centímetros maior que o de Rogério.
“Podemos usar o poema de Neruda: O Bispo. Colocamos um homem vestido de bispo queimando uma Bíblia. Depois filmamos a fumaça subindo aos céus, com a câmera girando.”
“Põe logo as ideias no papel, senão a gente acaba perdendo alguma coisa.”
Cena 1: Explosão em preto e branco.
Cena 2: Macacos gritando enfurecidos.
Cena 3: Zoom na boceta preta da amiga da Ana.
Cena 4: Ratos brigando por um pedaço de queijo.
Cena 5: Caralho do Zacarias mijando.
Cena 6: O bispo se ajoelha no chão, ateia fogo na bíblia, se levanta e a leva ao céu.
Cena 7: Zoom no cu de Ana, afasta a câmera subindo-a até a boceta. Meio zoom no talo (não esquecer de retirar os espinhos) entrando lentamente em Ana; zoom total na rosa.
Cena 8: Caralho de Rogério enrijecendo.
Cena 9: Um leão fodendo uma leoa.
Cena 10: Uma maçã podre sendo devorada por vermes. (zoom nos vermes). The end. “dê endi é acabou, ouviu burrão”
“Que tal?”
“Ainda falta muita coisa, luz, posição de câmera, fala, música…”
“Não vai ter fala nem música. Somente o barulho da explosão e dos vermes comendo a maçã.”
“Como agente vai fazer os vermes comendo a maçã.”
“Montagem.”
Alguém bate na porta. Zacarias esconde o beck e os papéis em baixo da cama, pega a bíblia que estava sobre o criado mudo e abre a porta. Sua mãe põe a cabeça dentro do quarto, olha ao redor e pergunta:
“Já escolheu quais os versículos que você vai ler no culto de hoje à noite?”
“Já. Gênesis, quero falar sobre a criação.”
“Isto mesmo meu filho, você está no caminho certo não podemos nunca nos esquecer como tudo começou. Deus te abençoe.”
“Amém.”
Robert de Andrade
Os Impublicáveis












