Em 2007, no Prédio do Engenheiros, na rua Timbiras, Centro de BH, tivemos o Sarau Impublicável com performance do ator Luiz Dias, apresentando monólogo O texto.

O Texto
Eu sou o texto. Uma coisa andrógina, fui criado por um homem, mas não sou homem nem mulher, sou homem e mulher, sou o que fazem de mim. [Com voz feminina]: ele agora deve estar se mordendo, seu personagem machão virou uma fêmea fatal. Me distorcem e se contorcem no turbilhão de significados que gira dentro mim. Sou mais que letrinhas enfileiradas, sou inculto, sou erudito, falo pra dentro, falo pra fora, digo sem falar, sou escrito sem palavras, sou imagem, som e até o silêncio, não tenho dono e estou aqui para quem quiser me pegar.
Me reinvente, me guarde na memória, me repasse como sua escória, revolta ou uma carta de amor.
Eu sou o texto, mais que as palavras próprias do autor, estou além do livro. Sou redundante, seco, empolado, cacofônico, pleonásmico, purista ou cheio de neologismo, não tenho estilo, sou um cosmopolita de identidades múltiplas. Já fui queimado pela inquisição, lido como sermão, adorado como Salomão, o caminho para salvação e o responsável pela sua perdição.
Eu só sou o que sou pelo movimento, aqui, ali, lá, acolá, descola a bunda do sofá e vira texto, saia do lugar, gire, mova-se, não importa se no sentido oposto, anti-horário, retilíneo, quem quiser que dê um itinerário. Voz dos marginais, gritos infernais, ladainha, modinha, cantiga, rima, verso, refrão.
O texto, hipertexto, metalinguagem, metáfora, rabisco, bilhete, lembrete. A propaganda, o politicamente incorreto, persuasivo, pernicioso, geral e subjetivo. Me cantam, comigo encantam, denunciam, informam, deformam, convocam, provocam e pedem perdão. Eu sou aquilo que você critica mas morre de vontade de fazer. Eu crio espaço onde ele não existe. Sou as idéias que subsistem a censura, a ira, o encanto, a cura para indiferença. Derrubo ídolos e refaço crenças.
Vá… bote as mangas para fora, deixa de medo. Seu erotismo é a minha pornografia, meu movimento é a sua romaria. Para uns o sagrado, para outros o profano. O acerto, o engano; o lucro, a ideologia. Vá… mostre o você tem a dizer, não tenha medo do que podem fazer com você. Cuspa suas palavras imundas, sussurre sua paixão reprimida, conte o que já fez de bom na vida, mostre suas feridas, declare amor ao insulto.
O texto, um leque multicolorido, um torpor de poesia, a fuga dos versos reprimidos, defensor dos malqueridos, visto pelos cegos, ouvido pelos surdos, recitado pelos mudos e incompreendido por aqueles que renegam a acuidade perfeita de todos os sentidos.
Um destaque especial para as entrelinhas, é lá que eu me esbanjo, me deleito na ambiguidade, subverto a falsa moralidade, surrupio o significado do que já está consagrado. É lá que me conto ao contrário, que digo que te odeio em vez te amo, que mando embora quando quero que fique, que dou o beijo no lugar do soco, que respiro fundo quando me domina o sufoco.
Sou eu que te situa no tempo, porque também sou linguagem, eu sou as referências que você utiliza para não enlouquecer. Sou a fábula que te fez dormir na infância, sou a Cinderela e o Bicho-papão; eu saí da sua boca quando você fez a primeira confissão; tirei seu sono nas vésperas de provas; te seduzi anunciando promoções imperdíveis; eu estive na boca do pai que ameaça e na voz do amante que se declarava.
Sou a semente da consciência, sou a única verdade que te ajuda quando você mente. Sou Maria e Madalena, estou além do limite de tudo que você pensa, eu o sou texto, eu sou você, e ele, e o outro. Eu sou o centro e a margem, sou a dor e o orgasmo, eu sou a mensagem e o ruído, eu sou lido e impublicável.
Robert de Andrade










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