O último abraço de Nietzsche
Em 1889, em Turim, o filósofo alemão Friedrich Nietzsche lançou o corpo sobre um cavalo que era chicoteado por um cocheiro. Abraçou o animal como quem tenta conter a violência do mundo com os próprios braços e, em seguida, desabou em lágrimas. Para muitos, esse episódio marca o colapso definitivo de sua sanidade mental. Tomo, porém, a liberdade — talvez insolente — de sugerir o contrário: aquele gesto pode ter sido o último ato lúcido de amor à humanidade. Sim, à humanidade.
O projeto de humanidade que, a duras penas, insistimos em sustentar não se limita ao bem-estar humano, como se fôssemos um fim em nós mesmos. Ele pressupõe uma rede viva, interdependente, que deveria operar de modo simbiótico. A civilização, ao menos em tese, funda-se no coletivo — e isso torna incontornável o cuidado com o ambiente que ocupamos e com os seres que o compartilham conosco.
Existir exige espaço. Mas não apenas um espaço que nos comporte, e sim um que acolha as múltiplas formas de vida que tornam possível a nossa própria. A humanidade se faz na relação: com o vegetal que nos alimenta, com os cavalos que nos ajudaram a transformar o mundo, com os cães que, não raro, sabem amar melhor do que nós.
Os animais não precisam de códigos jurídicos para viver em equilíbrio; bastam-lhes as leis da natureza. O homem, por sua vez, precisou desenvolver a inteligência em paralelo ao refinamento da crueldade. Esse paradoxo é tão latente que frequentemente vemos seres humanos recuarem à selvageria, sem abrir mão das benesses da civilização. Querem o conforto, mas rejeitam a responsabilidade; desejam os frutos, mas desprezam as raízes.
É por isso que não há o que relativizar na crueldade praticada pelos quase adultos de Santa Catarina contra o cão Orelha. A banalização desse tipo de violência é um recuo profundo e danoso ao bem-estar coletivo. O problema não está em nos comovermos diante do sofrimento de um cachorro ou de uma criança, mas no fato de ainda ser necessário o crime para que a comoção exista — para que o mecanismo civilizado da lei seja finalmente acionado. Tampouco deveria ser relativizada a aplicação seletiva dessa mesma lei, que perde vigor à medida que o réu embranquece e sua conta bancária engorda.
Volto, então, a Nietzsche, que nos apontou a arte como possibilidade de salvação. Gosto de imaginar seu último gesto como um pedido de desculpas dirigido ao cavalo — e, por extensão, à natureza — pela hostilidade do homem. Logo depois, o filósofo foi tragado pela loucura e pela cegueira, como se as cortinas se fechassem diante do espetáculo de uma humanidade decrépita, incapaz de reconhecer a própria violência.
Talvez Nietzsche não tenha enlouquecido por abraçar um cavalo. Talvez tenha enlouquecido porque já não suportava o mundo que o chicoteava.
Robert de Andrade