ColunistasRobert de Andrade

O tamanho das coisas

As coisas mudam de tamanho o tempo todo. Essa é uma afirmação mais poética do que científica, o que não a torna menos importante, pelo menos para mim. Ela também tem algo de infantil, que age como um retorno à minha ativa curiosidade dos tempos de menino, a qual, em certa medida, conservo até hoje.

O tempo é uma coisa que está ficando cada dia menor. Foi-se o tempo em que os meus domingos tinham 24 horas, nas quais cabiam uma ida ao parque, almoço na casa da avó, jogo de futebol à tarde e ainda fazer a lição de casa à noite. Agora, preciso escolher entre tomar três cervejas no bar do Diego ou assistir a um filme — ambos já não cabem mais em um dia só. Alguns dizem que a dinâmica do mundo mudou e, por isso, o tempo encurtou, mas acho que é mais do que isso. O fato de eu ter crescido fisicamente fez com que eu passasse a ocupar mais espaço no mundo, e quanto mais espaço ocupamos, mais tempo precisamos. Por isso, o pernilongo dura dez dias e o elefante chega a viver setenta anos.

Já existem coisas que crescem, como as distâncias. Vamos deixar de fora os avanços tecnológicos, com seus jatos supersônicos e a comunicação instantânea. Vinte anos atrás, a Lagoa da Pampulha era muito menor — talvez quatro ou cinco vezes menor do que é hoje. Era tão menor que, em pouco mais de duas horas, eu conseguia dar uma volta correndo ao redor dela. Atualmente, sua extensão aumentou tanto que eu precisaria de uns três dias para concluir o percurso.

A questão do tamanho está intrinsecamente ligada à nossa relação com o mundo, tornando-a, além de relativa, subjetiva. À medida que crescemos, as coisas diminuem — mas também podem aumentar, como o trajeto das mãos para alcançar o cadarço desamarrado. Também podem diminuir e aumentar ao mesmo tempo, como os passos que, na senilidade, ficam curtos, sendo necessário aumentar sua quantidade para atingir o objetivo.

O “não” é uma coisa que diminuiu, assim como a tolerância a ele. Não se diz mais “não” como antigamente — aquele “não” de mãe ou de pai, do tipo: “Por que não? Porque eu não quero!” E pronto. Era assim o “não” puro, como um muro erguido diante de nossa vontade. Éramos dotados de uma grande capacidade de assimilar a negativa, até porque não havia outra saída: não era não. A escassez do “não” parental, do “não” top-down, o tornou anômalo — ele agora é comumente disparado pelos petizes.

Há também as coisas que cresceram de maneira tão descomunal que acabaram se tornando outra coisa. A liberdade, por exemplo — antes diminuta, tolhida de forma truculenta por um governo autoritário, e alcançada depois de muita luta pela redemocratização do país — cresceu, ganhou forma e se transmudou em uma licenciosidade que tenta normalizar a desumanidade, o fascismo e o nazismo.

O tamanho das coisas é algo pulsante: cresce e diminui, às vezes deixa grande o que queríamos pequeno ou torna escasso o que desejávamos em abundância. Minha rebeldia, mesmo, hoje anda à míngua, encolhida diante das colossais mazelas do mundo — pequena e distante, bem longe dos tempos de estudante que sonhava em mudar o mundo pela arte. Resta-me apenas a esperança de que a segunda-feira se apequene e dê lugar aos velhos e opulentos domingos.

Robert de Andrade

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