tristeza normal

Posted: 19th agosto 2010 by Os Impublicáveis in Fábio Almeida

A cantora Joana tem uma música que diz assim:

- Meu namorado é um sujeito ocupado, não manda notícia, nem dá um sinal…

Simplizinho, não é? Mas olha a pérola de pensamento com que ela fecha o refrão:

- Eu ando meio com medo, que um dia ainda ache a tristeza normal.

Não é bonito? Não estou com problemas amorosos, não é por isso que estou escrevendo. Estou escrevendo porque, se não escrevo, posso achar que não escrever é normal.

Para mim, escrever é uma das maiores riquezas  que o homem pode adquirir neste mundo predominantemente materialista, e no entanto, a gente faz tão pouco caso disso, pratica tão pouco e quando o faz, geralmente só faz por obrigação.

Quanto à letra da música, “… que um dia ainda ache a tristeza normal”, não parece, mas é de uma profundidade muito grande.

Pense bem. Alguém com um sentimento triste, seja saudade, dor de cotovelo, amor não correspondido, depressão ou outro qualquer, se essa pessoa passar a conviver com esse sentimento o tempo todo e não buscar uma alternativa para sair do círculo vicioso da dor, acabará achando a tristeza normal.

E a simplicidade da declaração “eu ando meio com medo…” é uma forma sincera de reconhecer que está sofrendo, mas não está conseguindo forças para reverter a situação.

Creio que podemos aprender muito com a letra dessa música, embora não saiba se, quando a autora a fez, tenha construído a estrofe com a intensidade do sentimento, ou apenas para formar mais um verso para canção. Isto também, pouco importa.

Eu adorei, afinal de contas, estou sempre com medo, não da tristeza a que ela se refere, mas das tristezas das coisas que faço ou deixo de fazer e que não me agradam, mas com o passar do tempo, começo a achar normal.

Bem, pelo o menos por escrever, espero não correr esse risco. Embora sonhasse ser um dia, um grande escritor, só o fato de escrever de vez em quando, nem que seja um pequeno texto, é o normal que desejo, sem tristeza, mas com prazer.

Um abraço, um beijo, uma cerveja, azeitonas e um queijo.

De seu amigo de sempre: Fábio Neruda 

Fábio Almeida

desconversas

Posted: 18th agosto 2010 by Os Impublicáveis in Desconversas

- A mentira é uma verdade relativa.

- Isso é o mesmo que dizer que a sinceridade é uma verdade inconsequente?

…que amava os Beatles e os Rolling Stones

Posted: 17th agosto 2010 by Os Impublicáveis in Camilo Lucas

O território musical mais sujeito ao surgimento de lendas é o rock. O jazz e o blues também, a bossa nova com certeza; mas o rock é “o” criador de lendas. E provavelmente a mais famosa delas é a rivalidade entre os Beatles e os Rolling Stones, alimentada anos a fio por ambos.

Os Beatles (pelo seu empresário Brian Epstein), antes deles Elvis (pelo “Coronel” Tom Parker) e depois deles os Stones (pelo seu marketeiro Andrew “Loog” Oldham) são os inventores do marketing no pop. A lenda da rivalidade ajudou a manter as duas bandas no auge durante os fervilhantes anos 60.

A banda se diferenciava dos Beatles por explorar mais o “rithm & blues” do que o rock’n roll puro e simples. Assim, enquanto os Beatles emulavam Chuck Berry, Little Richard e Buddy Holly, os Stones, além destes, emulavam Muddy Waters (de onde tiraram o nome da banda), Robert Johnson e Bo Diddley. Os Beatles cantavam a alegria, os Stones a lama. Os Beatles se apresentavam de terninhos, os Stones de roupas casuais, da night, mas bem cortadas e “in”. Os Beatles estavam faturando horrores e os Stones moravam numa kitchnete de merda cheia de baratas e sem aquecimento num subúrbio de Londres. Alguma coisa tinha de ser feita.

Com o estouro ciclópico dos Beatles, pipocaram clones de franjinha e terninho por toda a ilha. Todos querendo ser iguais e ficando na lanterninha. Aí é que entrou a grande jogada de Oldham: já tem bonzinhos demais. Os Stones são maus, vamos explorar isso.

Conceituados no underground, principalmente pelo pessoal “cool, Oldham usou este argumento para convencer a Decca Records a contratar os Stones. Estamos em 1963, e um ano antes quatro rapazes de terninho estiveram na nesta gravadora para uma audição, gravaram 12 músicas e, depois de uma ligeira entrevista, foram dispensados com o argumento de que “conjuntos de guitarra são uma moda passageira”. Agora, esses gênios da futurologia mercadológico-musical estavam tomando remédios pra dormir, pra acordar e pra não suicidar, vendo sua concorrente EMI-Odeon rachar os cofres com os caras que eram uma moda passageira.

Um single com um “cover” de Chuck Berry (“Come on”) é lançado em julho e fica na rabeira das paradas. As coisas continuavam mal, mas George Harrison assiste a uma apresentação dos Stones, se entrosam e Lennon & McCartney doam “I wanna be your man”, um “lado B” de sua autoria, para os Stones gravarem como “lado A”. Assim, os Stones conseguem seu primeiro hit nas paradas: com uma música dos… Beatles.

Daí por diante é história. Stones são presos mijando na rua de madrugada. Stones são o contrário dos Beatles. Os Beatles estão cantando “I wanna hold your hand”? Os Stones gravam “I just want do make love to you”.“Você deixaria sua filha casar com um Stone?”, dizia uma manchete de tablóide sensacionalista… Perante o público, os Stones eram a antítese dos quatro carinhas de Liverpool. Mas quem se importa? Em off, eles trocavam idéias, curtiam a balada da “Swingin’ London” juntos, e a grande combinação: nunca lançar um single ou um LP simultaneamente. Os Beatles lançavam e depois de passado o impacto os Stones lançavam o deles. Milimetricamente intercalado. Um novo single a cada dois meses, um novo LP a cada seis meses.

Mas que rivalidade é esta? John Lennon é fotografado com o LP “Aftermath” nas mãos, o hit de 1965 dos Stones. No mesmo ano os Stones são vistos no cinema assistindo “Help”. Em 1967, na primeira transmissão mundial via satélite, os Beatles gravam ao vivo o single “All you need is love”. E quem está no chão, batendo palmas e fazendo parte do coro hippie? Mick Jagger, Marianne Faithfull e Keith Richards. Mick e Keith são presos por porte de drogas e soltos um mês depois de uma campanha da comunidade pop pela sua libertação. Para agradecer a este apoio, gravam o single “We love you”.  E quem faz parte dos backing vocals? John Lennon e Paul McCartney.

Os Beatles lançam sua obra prima: “Sergeant Pepper’s Lonely Hearts Club Band”. Na capa superproduzida, uma bonequinha posicionada no canto inferior direito ostenta bordado em seu suéter os singelos dizeres “wellcome the Rolling Stones”. No seu álbum seguinte, “Their satanic magesties request”, os Stones, em sua capa mais psicodélica ainda, colocam pequenas fotos individuais de cada um dos Beatles. Os Beatles numa cada dos Rolling Stones??? Mas que porra de rivalidade é esta? (veja as fotos que ilustram este texto)

Mas a rivalidade rolava, pelo menos na mídia. John Lennon falava que tudo o que os Beatles faziam, os Stones copiavam seis meses depois. E isso fica bem óbvio no disco das magestades satânicas. É descaradamente uma cópia de Sgt Peppers. Mas aqui: é bom pra caralho. Os Beatles encerram a carreira com “Let it Be” e os Stones, meses depois, lançam “Let it Bleed”. Dois discassos. Enfim…

Uma nota pra mostrar que, apesar de toda a armação, a rivalidade rolava mesmo – pelo tamanho dos gênios em questão dá pra imaginar o tamanho dos egos em questão. Olha essa: 1967. Aniversário de Mick Jagger marca a inauguração da boate Vesúvio, da qual os Stones eram sócios em Londres, e tocam o ainda inédito “Beggar’s Banquet”. O disco fica rolando a noite toda e faz o maior sucesso, calro. Mas Paul McCartney está na festa com um demo da próxima música dos Beatles. E passa pro DJ. Que num intervalo entre uma música e outra, põe pra tocar. A música era Hey Jude. Um dos sucessos mais avassaladores da carreira dos Beatles, daqueles que gruda no ouvido à primeira audição.

Fudeu com a festa dos Stones… Hey Jude foi repetida à exaustão e o todo mundo cantou em coro uma música dos Beatles. Mick Jagger nunca perdoou Paul McCartney por causa disso! Se a lenda da morte de Paul, outra que bombou nos ‘60, se confirmasse, Mick seria o principal suspeito.

Camilo Lucas

A homenagem (no círculo branco)

…E a recíproca

hermético asséptico contracético

Posted: 16th agosto 2010 by Os Impublicáveis in Cind Canuto

Ontem o meu time ganhou e eu não assisti ao jogo. Não sei bem por que chamo de meu time. Deve ser porque torço para ele desde que vim para Minas. Sempre que ele ganha fico feliz e sempre que perde não ligo a mínima, porque não tenho que ficar triste por causa de uma besteira dessas. É claro que meus colegas de trabalho sempre caçoam quando o meu time perde. Coisa de homem, herança guerreira antiga. Não assisti ao jogo porque fui à igreja. Não fui à igreja por causa de Deus, mas porque o domingo fica muito chato sem a igreja.

Também porque não faz tanta diferença assim assistir ou não a um jogo quando se trabalha onde trabalho. Os funcionários sempre conversam sobre o jogo, praticamente descrevem tudo, o que às vezes é melhor do que assistir. Prefiro ir à igreja. Não consigo entender como as pessoas conseguem viver a vida sem fingir ao menos que tem algo de religioso nelas. Eu só precisei de uns domingos completamente entediado para me decidir cristão praticante. Não há nada na TV, não há nada aberto, as praças esvaziam de crianças quando começa a escurecer, isso quando há uma praça por perto. Por que não, então, acreditar em Deus e ver moças bem vestidas todos os domingos? Conversar polidamente sobre o que for e ao mesmo tempo sem compromisso nenhum, coisa que não se faz nos bares, e por outro lado nem em reuniões de trabalho.

Já morei em muito lugar no Rio e em Minas. No Rio foi em todo canto, mas minha mãe me criou em Duque de Caxias. Ela mora lá até hoje, com minhas irmãs e sobrinhos. Lá ninguém nunca mexeu com drogas e nunca levou bala perdida. Eu não sou rico, mas fui bem-educado. Não entendo tudo o que dizem os filósofos, mas não me desentendo com ninguém. O oposto do conhecimento eu sei que não causa transtornos. Há inclusive gente rica mal-educada que eu sei. Essa gente sofre, eu não.

Meu time sempre ganha. Quando não ganha, eu não ligo. Mas finjo que sim, claro, fingir não dói. Ninguém gosta de ver a gente feliz toda vida. Minha família tem lá seus problemas, mas não comigo. Eu sempre me virei com minhas crias, eu não causo problemas, eles que me causam problemas sempre. Mas também não me importo, para isso servem os filhos. E eu que sou pai sirvo é para resolver os problemas mesmo.

Eu já passei fome, frio, sede, sono; quase morri afogado e de cansaço. Não tenho medo de morrer. Eu sou saudável, não tenho vícios. Nem mesmo o café, que tomo todos os dias, eu preciso para viver. Bebo todos os dias porque todos à minha volta também tomam, e porque ele não faz mal. Houve um tempo em que disseram que fazia mal e eu parei. Alguns meses depois disseram que não fazia mal mais. Creio que ninguém soube que eu tinha parado e nem que tinha voltado, e eu mesmo nunca fiz alarde. Se eu começasse a fumar e a beber, acho que seria o mesmo.

Percebi que posso realmente viver só eu e eu mesmo, apesar de não viver. Acredito na ciência, apesar desses seus descabimentos de dizer uma coisa e depois desdizer. É melhor acreditar nela que tentar criar minha própria ciência. Acredito também em estatística, e que ela sempre pende para o bem do meu lado. Bem, às vezes ela falha. A primeira vez que eu fui assaltado foi em Belo Horizonte, tendo morado sempre no Rio, que é o Rio. Mas ainda está em cima da linha estatística, pois acredito que os ladrões assaltem mais as pessoas que parecem perdidas, como eu que estava no meu primeiro dia na capital mineira. É por isso que hoje eu sou bem seguro de mim, mesmo que eu esteja completamente perdido. Há quem defenda a exposição de seus sentimentos reais, no entanto, ainda que eu concorde em defender a sinceridade, já sei que parecer perdido em nada ajuda e ainda atrapalha.

Se eu ficar parecendo perdido e desesperado, todos à minha volta ficarão ainda mais perdidos e desacreditados e a tendência será dar tudo mais errado do que daria. Julio Verne tentou me ensinar isso ainda em tenra idade, quando aquele inglês viajante ficou completamente tranqüilo com sua volta ao mundo em 80 dias sempre atrasando. Irritado sim, mas não abalado.

Minha mulher é o meu oposto, para tudo que pretende fazer ela diz no mínimo cinco vezes ao dia até chegar o dia de fazer, mesmo que seja fazer compras, coisa que fazemos todos os meses. Ela fala sobre tudo como se falar desse jeito fosse mudar alguma coisa. Bom, talvez para ela mude, talvez seja o jeito dela de se lembrar das coisas. Duvido um pouco de mim mesmo, sim, porém ao dizer muitas vezes que o que eu quero que seja é, já não duvido mais. Só sei que eu sempre me lembro.

Cind Canuto

fala Brasil

Posted: 13th agosto 2010 by Os Impublicáveis in O que que há

frases soltas

Posted: 12th agosto 2010 by Os Impublicáveis in O que que há

“Adoro os convictos, principalmente quando eles estão errados”

“O casamento é um acordo que precisa ser renegociado diariamente”

“O maior triunfo do artista é a própria morte”

“Escrever poesia é fácil, difícil é fazer com que alguém a leia”

“Se tivéssemos o controle de nós mesmos já seria um grande feito”

“A melhor maneira de fugir é correndo atrás de quem te persegue”

Robert de Andrade

que tal um cineminha?

Posted: 11th agosto 2010 by Os Impublicáveis in Fábio Almeida

Até que enfim é sexta feira. Ainda bem que não é Sexta-feira 13 e mal posso esperar Os embalos de sábado à noite. Também pudera, hoje tive Um dia de cão. De cão não, foi O dia do chacal, pois com o calor que estava fazendo, tomaria Um drink no inferno.

Aliás, Inferno na torre, porque fui a um edifício que, de tão alto, parecia ter Uma janela para o céu. De lá, se avistava O Parque dos dinossauros, um circo novo que chegou à cidade, e o Aeroporto 75, setenta e seis quadras adiante.

Como diria um amigo meu, O céu pode esperar, mas eu não vejo a hora de ir para o Stúdio 54, ao Cabaré ou a um Cassino, encontrar-me com os amigos e ficarmos Perdidos na Noite, ou num Horizonte perdido, tanto faz, afinal, sexta-feira sempre parece A primeira noite de um homem.  Renovam-se suas energias, sente-se forte como King-kong, perverso como O tubarão e guerreiro como O Gladiador. É na sexta que saimos Sem Destino e qualquer lugar é bom, nunca você é Um estranho no ninho, todos são iguais, O pequeno grande homem, Todos os homens do presidente, do mais simples até O iluminado, sem distinção. Seja um ou Sete homens e um destino, pois todos desejam uma coisa só: ter as Asas da liberdade.

Alguns extrapolam, se sentem O poderoso chefão e preferem confusão ao invés de divertimento. Eu prefiro as festas e se me chamam, sou O convidado trapalhão. Falou que é bagunça, vou até Em algum lugar do passado ou De volta ao futuro. E se a festa for boa, faço até 2001, Uma odisséia no espaço, dançando com Allien ou bebendo com O Dragão Vermelho. Faço Dança com lobos, dou Um tiro na noite, chupo Laranja Mecânica, aceito Proposta indecente, atravesso As pontes de Madison e vou ao Mississipi em chamas. E se me machuco, não importa Onde dói mais.

Sei que parece esquisito, mas chega o final de semana, sinto uma Atração fatal; parece Feitiço da lua, me transformo e adquiro A outra face, e Acima de qualquer suspeita, abandono o serviço. E se tem um companheiro, são Dois perdidos numa noite suja.

Mas veja bem, se é para festar, Faça a coisa certa, desarme o espírito. É Uma questão de honra. Deixe Os estranhos vizinhos para trás e não se preocupe com O preço do sucesso porque, de repente, até se vira um Herói por acaso.

E, quando tudo acabar, sobrarão as Lembranças do passado e na hora de dar explicação ao chefe pelo atraso na segunda, nunca se esqueça, dirija-se Ao mestre com carinho.

Fábio Almeida     

o velho e o mar

Posted: 10th agosto 2010 by Os Impublicáveis in O que que há

O centro de pesquisas subliminares dos impublicáveis descobriu que o pulmão dos versos dos cigarros é um velho fantasma que não parou de fumar nem depois do naufrágio que o matou.

trovão

Posted: 9th agosto 2010 by Os Impublicáveis in Robert de Andrade

Meu pai me ensinou a trovejar
Na hora certa pros demais engolir o choro
Pra saber o motivo válido das coisas a reclamar
Pois bom da vida é como ouro
Tipo aquelas tardes que o sol pousa nas costas do mar
Enquanto a maldade é querela que se sente no couro

Minha mãe de sabença me encheu
Dizia que o jumento, mesmo com a lomba machucada,
Garante o coxo que por razão é seu
Quinem seu dono que dependurando na inchada
De fome nunca um filho seu morreu

Então Mané, mesmo com a palma ulcerada,
Se te faltar a bóia
Esbraveja com essa língua afiada
Pois ela é tudo que te sobra

Robert de Andrade

o disco rígido do amor

Posted: 6th agosto 2010 by Os Impublicáveis in Robert de Andrade

Eu devia era me perder na vontade de ter o tempo todo, mas de quando em quando sou tomado por um desejo de desvendar o que me faz te buscar em tudo, a todo instante. A distância me causa a estranha impressão de te possuir, não como alguém que aguarda o retorno de outrem, mas daquele que já não espera por estar certo de que a ausência é apenas um curto intervalo de um amor seguro e não perecível. O oposto é estar ao seu lado, nunca sei se é você realmente quem caminha em meus confins e vez por outra acaba se perdendo num olhar distante e apagado, como se tivesse a capacidade de se desligar do mundo. Mas sua respiração convulsa, quase ofegante, e o calor que vem como uma pulsão da sua pele me diz que você sonha acordada com um amor qualquer. O amor qualquer é mais forte que o nosso, pois esse qualquer ficou inacabado, e não te importa se a interrupção se deu por falta de ânimo. A você só interessa que algo pequeno, mas ainda assim deleitoso, ele te possa fornecer. Eu devia mesmo era me perder em novas promessas, novas possibilidades que me fossem dadas por outras muitas mulheres que vivem por aí. Acontece que às vezes me pego mexendo no passado impresso nas folhas que guardo, não como a lembrança de um amor afonsino, mas como um registro da felicidade que um dia ameaçou existir. Leio as cartas em que você se declarava completamente debelada pelo nosso amor e rio até do medo dizer “eu te amo” um para outro. Era melhor quando fingíamos não nos amar, porque o amor era tão forte que nos doía a alma, quisera deus pudéssemos morrer desse amor. Mas a gente também não acreditava em deus, e não era para menos, afinal o nosso amor parecia bem maior do que aquele que nos prometia a bíblia. Quantas vezes tentamos fugir de nós mesmos? Sabíamos, os dois, que cada um devia cuidar dos próprios sentimentos, mas nossos anseios se misturavam, envolvendo o que estivesse à volta: o cigarro, a bebida, os amigos, os livros, o ódio que sonhávamos ter um do outro.  O amor acaba e se não acabar ele vira alguma coisa qualquer que poderá ser amada por outra pessoa, de uma outra forma, em um outro momento, quando já estivermos mortos ou velhos, tendo já vivido tantos amores melhores, mas que só são melhores porque vieram depois, porque são recentes, porque sem amor não se faz nada direito.

Foi se o tempo em que as cartas eram enviadas pelo correio, ou até por pombos-correio. Não tive tempo de me despedir e também acho que não queria me despedir, mas de repente me vejo de volta à literatura que tanto me odeia e começo a mexer em arquivos do passado que o HD me fez o favor de guardar para um dia eu relembrar. Relembrei muito cedo. O plano era fazer isso daqui a dez anos, mas antecipo por não saber o que o futuro nos reserva e te envio essa porção de frases de um passado que só nos pertence na condição de memória.

Robert de Andrade