Robert de Andrade

Sem lastro

Vivemos num tempo em que defender o coletivo se tornou coisa de comunista. A carapuça de comunista não me pesa, pois defender o bem comum é só uma questão de sensatez, o mesmo valendo para os direitos humanos, dos quais faço uso e prezo. Tenho uma queda pelos espaços públicos e as infinitas relações humanas que se desenvolvem neles, do despretensioso “bom dia” recebido de um desconhecido ao protesto contra a perda dos direitos trabalhistas.

A rua é o meu lugar de existir. Todos os dias, meu contato com ela começa às 5 da manhã, hora que saio para correr. Quase não tem muita gente nesse horário, alguns bêbados que viraram a noite no golo, uns poucos que como eu saem para caminhar na madrugada e trabalhadores que se juntam nos pontos de ônibus.

Outro dia, quando seguia em meu trajeto matutino, os trabalhadores haviam acabado de entrar no ônibus e bem ali onde eles aguardavam, encontrei uma nota de 10 reais. Peguei e fiquei pensando na pessoa que a tinha perdido, ela devia ter acordado às 4 da manhã, ninguém além de mim acorda nesse horário se não for por necessidade. Será que era com esse dinheiro que ela iria pagar a passagem? Ou era para o almoço, cigarro ou remédio?

A nota estava no meu bolso e as dúvidas na minha cabeça. Não tinha como devolver para o dono, eu nem sabia quem ele era…. na verdade, eu era o dono agora. Também não queria dar um uso comum para o dinheiro, queria colocá-lo em circulação de uma outra forma e decidi que iria dar a grana para a primeira pessoa que me pedisse.

No mesmo dia, saí para o trabalho e deixei a nota no console do carro. Todos os dias, encontro pelo menos uns dez pedintes no meu itinerário. Parei em um sinal da Avenida do Contorno e de longe avistei uma senhora que sempre ficava por ali abordando os motoristas. Peguei o dinheiro e fiquei esperando sua chegada. Ainda faltavam dois carros para ela me alcançar quando o sinal abriu.

Próximo semáforo. Dessa vez era um adolescente, descalço e de boné. Nota em punho, ele iria gostar de começar o dia ganhando 10 reais. Fiquei olhando para ele quase que implorando para que viesse até o meu carro, ele percebeu o meu olhar e provavelmente se sentiu intimidado, pois saltou o meu carro e abordou o de trás. Por que não o chamei? Porque queria interferir o mínimo possível no percurso desse dinheiro. Queria que fosse acidental. Assim como para quem perdeu, seria para quem iria receber, guardadas as devidas disparidades emocionais entre a sorte de ganhar e o azar de perder.

Estacionei o carro numa rua adjacente à da empresa em que trabalho. Na calçada, ao lado do veículo, um morador de rua mexia nos seus pertences que estavam dentro de um carrinho de supermercado. Ele estava muito concentrado, então resolvi esperar um pouco no carro e só sai quando suas coisas estavam em ordem. Mão no bolso, segurando o dinheiro, olhei e aguardei que me pedisse. Não pediu. Tentei uma aproximação: “Bom dia.” Sem responder, ele deu as costas e saiu empurrando o carrinho.

Estava difícil dar o dinheiro para alguém, talvez pelas condições que impus, apesar de que não eram tão rígidas: a condição era que me pedissem. Oferecer o dinheiro a alguém era muito fácil, creio que até os que não precisam aceitariam. Não estava disposto a desistir, deixei a grana no bolso para que, mais tarde, quando saísse para comer, pudesse dar seguimento ao meu plano.

Saí para um café, do outro lado da avenida havia um típico morador de rua, atravessei e fui em sua direção. Era um homem de aproximadamente sessenta anos, estava cabisbaixo e não notou minha presença. Já bem próximo, vi um livro, desses didáticos, de matérias específicas. Tentei descobrir a matéria, pelas imagens, geografia ou história. Tirei o dinheiro e como ele não me olhava, resolvi deixá-lo cair perto dos seus pés. Pronto, consegui.

“Moço, moço!” Era ele me gritando. Virei-me e voltei para ele que emendou: “Você deixou este dinheiro cair”, estendendo a nota em minha direção.

“Obrigado, pode ficar com ele.”

“Pega, eu não quero o seu dinheiro.” Peguei a nota e guardei no bolso.

Senti uma pontada no peito. Que merda de pessoa eu era, querendo me fazer de herói do mendigo que naquele confronto se mostrava mais digno que eu? Ele não queria dinheiro, queria qualquer outra coisa que certamente eu não poderia lhe dar. Ele não queria estar no meu lugar e eu sentia que ele estava certo em não querer.

Tomei o café que desceu mais amargo que o de costume. Nesse dia, ninguém me pediu dinheiro, ninguém mais me abordou. Dormi cedo e acordei mais cedo que o de costume, saí para correr e deixei a nota no mesmo lugar que a encontrei. Quem sabe quem a perdeu ontem  a encontre hoje?

Previous post

Desconhecer Uberlândia

Next post

Sem lastro