(des)levezas

Manual prático de manipulação do ódio e da destruição

Manual prático de manipulação do ódio e da destruição

Em termos psicanalíticos, toma-se o recalque como verdadeira garantia civilizatória. Noutras palavras, pode-se afirmar que os processos de recalcamento são a marca da civilização na subjetividade, na medida em que estabelecem os interditos que garantem o prosseguimento do trabalho de cultura, noutras palavras, a continuidade dos esforços no sentido da construção de um mundo e um futuro comuns, partilháveis, o que se faz possível a partir da conversão em proveito da vida das pulsões mortíferas do sujeito. Não fosse o recalque, portanto, libertos estariam os impulsos incestuosos e agressivos de cada sujeito, de modo que aberto o caminho para a guerra de todos contra todos, em termos hobbesianos.  

Tratando-se de uma marca civilizatória, o recalque é, pois, resultado da intervenção de uma primeira autoridade imposta ao sujeito na limitação de sua relação pretensamente total com a mãe, que é quem o atende em todas suas necessidades. Assim, temos que essa primeira autoridade atua exercendo a função de instaurar a cultura no sujeito, separando-o do que mais se aproximaria de um estado de natureza, humanizando-o, portanto. Referimo-nos à função paterna, tal qual a definiu Lacan, o Pai – conceito que não se confunde com o de paternidade biológica, tampouco exige uma figura masculina para exercê-la, daí tratar-se de uma função –, enquanto representante da cultura, partejando a subjetividade ao limitar o livre acesso do nascido humano à mãe, que, por sua vez, é tomada como representação da natureza, fonte de satisfação de necessidades e instintos.

É, assim, pela Lei do Pai que primeiramente se impõem contenções civilizatórias aos impulsos primitivos do sujeito. Entretanto, embora ao Pai caiba essa interdição primordial, esse processo de humanização é complementado pelas diversas autoridades que, ao longo de sua existência, vão se impondo ao sujeito, reinscrevendo-o no trabalho de cultura, legitimadas por aquele interdito primeiro e pelo conjunto de valores que constitui a sociedade que este passa a integrar. Diz-se, então, de uma renovação dos processos que garantem a manutenção instável, mas minimamente segura, do recalque, na medida em que conseguem impor forças de contenção em alguma medida superiores àquelas contrapostas pelos impulsos primitivos interditados, que incessantemente buscam satisfação.

Se assim é – e aqui fazemos um resumo bastante breve da questão segundo uma abordagem psicanalítica –, podemos concluir que eventuais falhas ou a manipulação desses renovados processos de interdição atualizadora do recalque podem ter efeitos desastrosos em termos subjetivos e sociais. Afinal, como antecipado, caso se esgarcem as tramas de contenção do recalque, são os impulsos mais destrutivos que ganharão livre fluxo. Dizemos, então, do atropelo da civilização pela barbárie.     

Foi o que se passou na Alemanha de Hitler, na medida em que este conseguiu encarnar, para aquele povo, sua autoridade máxima, uma espécie de mito fundador ou, ao menos, seu representante imediato. Nessa condição, pode se apropriar das leis asseguradoras do recalque e, manipulando-as, controlar, especialmente pela linguagem[1], toda uma população, assim convertida em simples massa de manobra, imunizada em face de qualquer oposição que se dirigisse ao novo senhor de suas leis e destinos. Note-se que, entregando-se em franco servilismo àquele tomado como seu mito fundador, os seguidores de Hitler abriram mão de seu senso crítico e, logo, de sua autonomia, de modo que se tornaram simples cumpridores de suas ordens – o que explica o fenômeno Eichmann como exemplificativo de tudo o que se passou com o povo alemão que se fez servil à hedionda ideologia nazista.

Diante de um tal apassivamento, Hitler pode derrubar os interditos que ainda continham os impulsos destrutivos de um povo que permanecia sofrendo por situações e humilhações diversos que ocasionaram e que resultaram de sua participação na Primeira Grande Guerra. Nesse contexto, na medida em que lograva arrefecer qualquer senso humanista, Hitler elegeu determinados inimigos – com destaque para os judeus – que, a partir de então, passaram a encarnar toda culpa pelos males que se impunham à Alemanha e que supostamente a impediam de atingir seu estado ideal, bem como de impo-lo ao mundo sob a forma do Terceiro Reich. Trata-se de um processo de propagandeada desumanização de opositores para, contra eles, canalizar os impulsos destrutivos e o ódio que os mobiliza, os quais, até então, eram contidos pelos interditos humanizantes esfacelados pela linguagem da ideologia nazista (a grande narrativa do Terceiro Reich).

Sabe-se que o nazismo e toda a destruição que engendrou são fenômenos recentes em termos históricos. Entretanto, parece que não nos ensinaram o suficiente, como nos demonstra a (sur)realidade brasileira.

Afinal, pelas mãos de alguém chamado de mito[2], vamos assistindo à queda de muitos dos interditos que, mesmo precariamente, ainda garantiam algum humanismo na administração das desigualdades e injustiças que caracterizam o Brasil. Não que estivéssemos próximos de níveis decentes de distribuição de direitos e renda, mas vínhamos melhor que de costume.

Nosso mi(n)to, portanto, com o apoio do mercado e da mídia que o serve sem pudor, valendo-se da linguagem e de narrativas nada menos que absurdas, conseguiu suspender pudores e mobilizar todo um fluxo de destrutividade contra determinadas pessoas e ideologias. Conseguiu esgarçar as tramas de um recalque que ainda assegurava o laço social, empoderar a ignorância e fazer fluir discursos e atos de ódio contra pobres, negros, gays, índios e mulheres, vítimas cada vez mais autorizadas de variadas formas de violências reais e simbólicas.

Mas o fascismo brasileiro tem suas peculiaridades, como se nota na própria adesão em massa de atuais e futuras vítimas ao discurso que legitima seu massacre. Por questões que misturam variadas formas de alienação, com destaque para uma vergonha da própria condição e uma aberta inveja dos algozes, assistimos a uma adesão de boa parte dos excluídos dessa nova ordem – pobres, negros, gays, mulheres etc. – ao discurso que os tornará vítimas em curto prazo. O ressurgimento de uma miséria que se apresenta desabrigada nos centros urbanos, o desmonte de direitos trabalhistas e previdenciários, o fim das linhas de crédito para os mais pobres, o sucateamento da saúde e da educação, o morticínio de mulheres, dentre outros massacres cada vez mais comuns são a prova do que se diz, no prenúncio de um horizonte funesto para a maioria dos brasileiros.

E, se Eichmann tentou justificar as barbáries que cometeu em nome de Hitler e da ideologia nazista com o argumento de que cumpria ordens, a desculpa pronta para toda ignorância e crueldade por aqui discursadas e praticadas é uma só: a culpa é do PT – não importam os fatos, a razão, a ciência ou a história.

Vejamos quantas mortes e misérias, reais e simbólicas, teremos de suportar até conseguirmos acordar desse pesadelo bárbaro e novamente recalcar a destruição e o ódio liberados, o que significa retomar a marcha civilizatória em nome de nossa própria sobrevivência.


[1] Nesse sentido, vale a leitura de LTI: a linguagem do Terceiro Reich, de Victor Klemperer.

[2] Neste ponto, devemos reconhecer que nossa mitologia é mais pobre que a alemã, nada havendo a demonstrar que Hitler fosse acometido de limitações cognitivas graves. Talvez, a igualdade entre os mitos alemão e brasileiro limite-se apenas a sua crueldade e capacidade de legitimar, em discursos e atos, uma ignorância orgulhosa de si.  ] .

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