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Me engana que eu gosto I

Me engana que eu gosto I[1]

“Você acha que os fins justificam os meios, por mais abjetos que sejam. Eu lhe digo: O fim é o meio pelo qual você o atinge. O passo de hoje é a vida de amanhã. Fins grandiosos não podem ser alcançados por meios torpes. Isso você provou em todos os seus levantes sociais. A mesquinhez e a desumanidade dos meios fazem com que você seja mesquinho e desumano, e tornam os fins inatingíveis.” Wilhelm Reich, dirigindo-se a um fascista imaginário – ou nem tão imaginário assim –, alertando sobre os riscos da prevalência dos meios em relação aos fins, em seu “Escute, Zé-ninguém” (2 Ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007. p. 76).

Lidar com a realidade é sempre complexo, de modo que é do ser humano, pensante e falante que é, fantasiar uma realidade paralela com que consiga adoçar sua vida. Para amenizar seus sofrimentos, o sujeito, então, cria as mais variadas ilusões que lhe permitam lidar com a morte e com os tantos outros limites que a realidade impõe. Essas fantasias, como tudo na vida, podem ser positivas – como é o caso da arte, por exemplo – ou negativas – como serão aquelas que alienarão o sujeito ao ponto de apartá-lo da realidade, o que, radicalmente, aponta para o enlouquecimento. Do exposto, portanto, concluímos que, embora sempre vença ao final, a realidade é, a um só tempo, uma referência de contenção e transgressão humanas; o que faz barreira e impulsiona o sujeito em seu percurso terreno.

Posto isso, temos que, enquanto ser de linguagem que é, a palavra – o simbólico – serve ao sujeito como seu principal instrumento de acesso ao que lhe é possível tocar da verdade. Noutros termos, é pela palavra que o ser humano constrói sua realidade própria, que, como dito, é limitada e transcende aquela realidade cuja totalidade jamais poderá ser alcançada e que, ao final, se lhe imporá pela morte. Portanto, não fosse a realidade e a morte, sua face radical, o homem não sonharia; não sonhasse, não seria o homem.

Se assim é, e se é necessário avançarmos no nosso processo de humanização, cumpre a nós, sujeitos inseridos em sociedades, voltarmos nossos esforços ao que interessa e transformarmos a realidade a partir dos instrumentos que temos à disposição. Ou seja, cabe a nós considerarmos a realidade em sua complexidade, compreendê-la e cooperarmos para humanizá-la, transformando-a enquanto conduzimos adiante o processo civilizatório.

E qual a importância de se dizer isso no Brasil de hoje? Isso importa na exata medida da urgência de deixarmos a posição de ovelhas conduzidas ao abismo por pastores cegos. Não é porque a palavra é o que pode nos conectar a uma verdade possível que ela (a palavra) pode contê-la toda (a verdade) – sim, falamos das fake news e outras ilusões de que tanto gostamos porque permitem acreditarmos exatamente no que queremos. Assim, por mais mi(n)tológico que seja o arauto, não é porque ele diz que um cachorro é um gato que o cão se torna um bichano; não é porque se afirma que a terra é plana que o globo terrestre se planificará; não é porque alguém afirma que não falta trabalho no Brasil que conseguirão trabalho os quase trinta milhões que o procuram[2]; não é porque se escrevem leis ou se distribuem armas que acabarão os crimes; não é acabando com a educação que se constrói um futuro; não é violando leis que se faz justiça…

Em outras palavras: ou aprendemos com as lições da história e assumimos que a realidade é complexa e indócil às simplistas soluções propostas por prestidigitadores e astrólogos, fanáticos e outros lunáticos de plantão, ou nos portamos como a criança embasbacada diante do mágico barato e perverso que, enquanto fala muito e balança as mãos, lhe tira o doce e a inocência. De todo modo, observamos que os segredos desses “passes de mágica”, mais cedo ou mais tarde, terminam vindo à luz, assim como acabam aparecendo os fios com os quais se manipulam fantoches voluntariosos e desprevenidos.


[1] Texto originalmente publicado em 07/06/2019, no Jornal Expressão Regional, de Palmeira das Missões/RS, estendido devido à grata oportunidade que nos garantem as matérias recém publicadas pelo The Intercept (https://theintercept.com/brasil/), que aqui chegam em bom momento.

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[2] https://economia.uol.com.br/empregos-e-carreiras/noticias/redacao/2019/05/16/desemprego-no-pais-pnad-ibge.htm

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