Crontos, cônicas e afins

Aposentadoria

Aposentadoria[1]        

            Raimundo Pereira da Silva é mais um dos rostos na multidão que habita uma das capitais de um grande estado que faz parte de um grande país.

            Todos os dias, Raimundo acordava às cinco e meia da manhã, pegava o metrô e mais um ônibus, chegando à obra exatamente às oito. Vestia seu macacão e trabalhava até as seis, chegando em casa a tempo de descobrir que não teria mais tempo de escutar aquele programa de música sertaneja de que haviam lhe falado.

            Todas as noites, Raimundo pensava em sua namorada e no dia em que poderiam se encontrar ou se, ao menos, poderiam se encontrar, já que agora arrumou um bico de vigia noturno naquela fábrica de calçados que ficava no bairro vizinho.

            Todos os meses, Raimundo fazia planos os quais via desfazerem-se com o passar do tempo. Ficar mais tempo com a Ritinha, parar de fumar, descansar um pouco mais, enfim, ser um pouco mais feliz, dizia ele.

            Raimundo se aposentou.

            Todos os dias, Sô Raimundo passou a acordar às nove da manhã, atravessar a rua e sentar-se no bar do Chico, onde ficava até as sete da noite.

            Todas as noites, Sô Raimundo passou a chegar a tempo de bater em Dona Ritinha e cair de bêbado na primeira cama que encontrasse.

            Todos os meses, Sô Raimundo passou a descobrir que o dinheiro não daria para pagar a conta do boteco e que teria que pedir emprestado a Dona Ritinha.

            No último Natal, Sô Raimundo descobriu que já não tinha o que planejar, nem sonhos a serem desfeitos, nem nada a descobrir.

            A Dona Ritinha já não tem a mesma graça e Sô Raimundo está exausto de tanto descansar. Não vê mais sentido em parar de fumar ou de beber, vício, este, adquirido logo após sua aposentadoria.

            Procurou um novo emprego, sentia falta de trabalhar, mas ninguém estava admitindo mão-de-obra cansada. É o que diziam.

            A Dona Ritinha foi embora depois que o Sô Raimundo pôs fogo no barraco. Ele andava meio esquisito. Batia cada vez mais em Dona Ritinha e, de vez em quando, gritava coisas estranhas, avisando que o andaime estava caindo ou que a massa estava quase pronta.

            Estranhas porque o barraco não estava em reforma e o Sô Raimundo nunca soube fazer macarrão ou bolo.

            Um dia, Sô Raimundo apareceu no telejornal.  A moça da TV disse que ele passou a noite inteira empoleirado no topo de um edifício em construção, berrando que o acabamento era com ele. No final da reportagem, uns moços de branco o colocaram num carro, também branco, e sumiram. Parecia até coisa de filme.

            Chegou a notícia de que o Sô Raimundo tem andado melhor, feliz da silva. Tão falando que ele até voltou a mexer no ramo de construção: anda erguendo castelos de areia no manicômio municipal. A cada um que constrói, chama todo mundo para ver, mostrando um riso largo, já desprovido de branco, e um brilho alegre no olhar.

            Eu conheci o Sô Raimundo já com certa idade. Tenho pena dele, não sei o que aconteceu.

Só sei que hoje é dia de comemoração. Graças a Deus estou me aposentando e vou poder passar mais tempo com a Maria e os meninos. Nada de trabalho de sol a sol. Vou até dar uma passadinha no bar do Chico para tomar uma e comemorar.


[1] Texto escrito em 2005.

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F.D.P