Crontos, cônicas e afins

Gente Podre

Gente Podre[1]

Domingos Barroso da Costa

– Gente podre… Sartre tinha razão!

            Com essa frase, Ricardo Augusto II começava a subir a ladeira que levava ao cemitério da Boa Morte.

            De dentro da limousine funerária, olhava com expressão de nojo para as pessoas que, apenas por aquele momento ou rotineiramente, habitavam o cenário de casas humildes, terreiros de umbanda e bocas-de-fumo que circundam o cemitério. Podia ouvir os tambores marcando pontos, o cheiro de flores como o crisântemo já ocupava suas narinas, aumentando ainda mais o desconforto que sentia desde a manhã anterior, quando recebera a notícia da trágica morte de seu pai.

            Não conseguia imaginar seu pai morto, afinal mitos não morrem. Nunca houve muito contato entre os dois. Na verdade, lembrava-se mais de sua imagem altiva e austera pintada nos quadros espalhados pela casa que de sua imagem viva. Quando era pequeno, ouvia os criados chamando-o de parasita. Até hoje não entende o motivo dessa denominação, não via maiores problemas no fato de se emprestar dinheiro a juros.

            Desta forma Ricardo Augusto – que mais tarde acrescentou o “Primeiro” ao seu nome – fez fortuna. Dinheiro que possibilitou o casamento com Dora Veiga, fina dama da sociedade, filha mais nova de uma família tradicional à beira da falência, que só aceitou o matrimônio porque precisava do dinheiro do futuro genro para cobrir o rombo provocado pelos devaneios pródigos de Alexandre Veiga, o filho mais velho.

Do casamento nasceu Ricardo Augusto II, menino prodígio educado pelos melhores professores da capital, os quais lhe davam aulas particulares na mansão em que morava no meio da Serra dos Ventos, num condomínio fechado em que a menor distância entre vizinhos era de cinco quilômetros. Local cujos habitantes eram, em sua maioria, velhos excêntricos que não prezavam qualquer forma de contato com outras pessoas.

            Rico II viu o primeiro ser humano que não fosse seu pai, seus funcionários, criados, professores ou médicos – que não curavam sua asma – aos sete anos de idade, quando apareceu, na região da Serra, um homem de meia-idade, dizendo ser irmão de sua mãe. Porém, não se lembrava do rosto desse homem. Só lembrava que seu pai não quis muita conversa. Dizem que após a morte de Dora, durante o parto de Rico II, Ricardo, o pai, decidiu morrer em vida: construiu a mansão da Serra, se mudando da cidade, abandonando os poucos amigos e familiares que tinha.

            Aos dezessete anos, Rico II teve de ir para a capital concluir seus estudos. Formou-se em Direito e assumiu os negócios de seu pai, os quais administrava com extrema habilidade. Possuía a frieza necessária para executar devedores inadimplentes. Não se importava com nada que não fossem seus livros ou seus cavalos. Às vezes, fodia alguma prostituta, como se saciasse alguma fome.

            Dispensou o velório. Afinal, ninguém compareceria. Quando morre um agiota não se chora, a não ser que de alegria. Optou por um enterro sem maiores delongas.

            Chegou à entrada do cemitério, sendo obrigado a descer do automóvel. O desconforto havia aumentado. Se parecia muito com seu pai, pelo menos com o que retratavam os quadros. Isso criava uma proximidade incômoda. Será que também ficaria louco e se mataria?

            Meninos jogavam bola na rua. Quando desceu do carro, um deles, o catarrento, pediu um trocado. Ignorou o moleque. Considerava-se em nível superior a qualquer outro ser humano, principalmente aos daquela ralé. Que morram, resmungou, continuando seu caminho, evitando os demais meninos, os vendedores de flores, os guardadores de carro, que gritavam, praticando suas pequenas extorsões, aqui e ali.

            Nunca pensou muito na morte. Não imaginava que pudesse morrer.

            Pelo menos até aquele dia.

            Os pensamentos embaralhavam-se à medida que seu coração acelerava. Afrouxou a gravata. Os coveiros começavam a descer o ataúde, estranhou, teve a impressão de que um deles se assemelhava a seu pai, devia ser o calor, merda de dia quente, disse para si mesmo, nunca havia se sentido confuso, devia ser o calor…

            O coveiro jogou a última pá de cal, seu rosto era familiar.

            Saiu apressado do cemitério, suava, estava desesperado, o suor escorria, o calor aumentava… Quanto mais suava, menor se sentia, parecia que suava a própria existência, calor desgraçado, pensou.

            Avistou os meninos jogando bola, estava em pânico, achou todos os meninos familiares, mas descobriu que não era com seu pai que se pareciam, se pareciam com ele, eram cópias, estava cercado por ele mesmo. Jogavam um futebol de espelhos, sentiu-se roubado, avistou um dos guardadores de carro, também tinha seu rosto, todos eram iguais a ele, continuou correndo, suava, estava encolhendo, pensou e caiu de joelhos… Arrastou-se até o muro do cemitério, os meninos se aproximavam, todos iguais a ele, suas vozes agudas se misturavam aos tambores dos terreiros vizinhos, sentia-se como se, ao invés do cérebro, tivesse uma colmeia no crânio.

            Estava acuado. Antes de ficar tudo escuro, olhou para o alto e ainda pôde ver o menino catarrento, que também roubara seu rosto, estender-lhe a mão, como quem oferece ajuda.

Gente podre, pensou.


[1] Texto escrito em 2005.

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