Robert de Andrade

O séquito

Berenice andava para um lado e para o outro feito uma barata tonta. Mudava um ou outro objeto de lugar, limpava o que estava limpo, acendia velas e guardava os porta-retratos. Uma preocupação de mãe que casa a primeira filha, doces, bebidas, convidados, adornos… As filhas já estavam todas casadas e nenhuma teve festa. Fazia tempo que a família não se reunia, desde a briga entre os irmãos Geraldo e Carlos. Estavam sem conversar havia dez anos. Carlos, o mais velho, jurou que nunca mais falaria com o irmão; Geraldo deu com os ombros, não ligava para ameaças ou conselhos, gostava mesmo era de umas biritas e um fuminho de vez em quando.
Não teria quarto para todo mundo, a família era grande e a maioria morava na capital. Os vizinhos emprestaram colchões, também tinha um sofá-cama que poderia ser usado. Ainda tinha que se preocupar com os comes: bolinho de chuva, torrada, broa de fubá, chá, café… Para o jantar uma sopa de cará estava de bom tamanho, se bem que se Fernando viesse só a sopa não daria, ele come feito um porco. Mas se enfim ele aparecesse, então Berê faria uma farofa para empanturrá-lo. Apostava que alguma de suas irmãs a alfinetaria dizendo que farofa não combinava com sopa de cará. Fez o bico que só ela sabia fazer, como se as irmãs já estivessem todas ali na cozinha, colocando defeito em seus arranjamentos.
Já estava quase tudo pronto, só faltava passar os bolinhos de chuva no açúcar com canela em pó. Coisa rápida que ela fez ali mesmo na cozinha, enquanto seu casamento lhe vinha à lembrança. Teve bolinho de chuva e bolinho de chuva foi a única coisa boa que teve. Só de pensar naquele velho gagá, que Deus ou o diabo o tenha, um bico involuntariamente surgia em sua boca.
Pronto. Agora é só esperar. Manuel, seu filho mais velho e o único homem da casa, estava cuidando dos papéis e outros despachos. Ainda assim Berenice se sentia incomodada, sem lugar. Como se alguma coisa estivesse fora da ordem. Já devia ser a falta que sentiria de Leda, chegando sorrateira na mansidão da tarde. Seria possível sentir a falta daquela velha entojada, o fardo que seu marido lhe tinha deixado. Quantas vezes pediu a Deus que a levasse para junto dele. Pedia no silêncio de suas rezas, em seguida pedia perdão, sentia-se uma pessoa execrável por isso. Tão logo a velha lhe atirava um penico cheio de merda na cabeça e a vontade de que ela fosse logo para o cemitério voltava a sacudir seu coração. No entanto, agora era como se morta, Leda fosse a pessoa boa e querida que nunca fora.
Tomou café e foi para o alpendre fumar quantos cigarros fossem necessários para diminuir sua ansiedade. Às cinco da tarde Manuel chegou trazendo o corpo. A sala estava preparada para o velório. Optaram por colocar o caixão no canto, evitando que algum dos encapetados filhos do Marquinhos o derrubasse ao atravessar a sala correndo. Uma coroa de flores foi colocada ao lado do corpo. Enquanto terminava a arrumação, o carro de som passou em frente a casa anunciando o falecimento.
“A família da senhora Leda Alcântara de Souza, consternada, cumpre o doloroso dever de informar o seu falecimento ocorrido ontem. O corpo está sendo velado à Rua do Tabuleiro 743, no Rosário, e o sepultamento será às nove horas no cemitério local”.
Manuel havia cuidado de tudo, quase sentiu uma ponta de orgulho, mas preferiu transferir o pensamento para a morta. A tampa do caixão foi posta atrás da porta, algumas cadeira formaram um círculo na sala. Ainda não tinha olhado o corpo, Berê agia com indiferença, aguardava o confronto para o momento que tudo estivesse no seu devido lugar.
Enfim lá estava a infeliz, deitada sob flores brancas como que dormindo o sono dos vencedores. Seu semblante passava a leve impressão de que morrera sorrindo, zombando da cara de Berenice que cuidou dela até o fim, mesmo sem nenhuma obrigação legal ou moral. Cuidou porque foi o que lhe restou da vida. Sentia-se uma velha quase inútil, cuidar dela pelo menos fazia se sentir útil.
Berê se aproximou do defunto, levantou o véu, olhou firme na sua cara e suspirou como se dissesse: “acabou”. Em troca recebeu o sorriso zombeteiro da morta. Lembrou-se dos tempos em Leda era uma mulher airosa que desfilava pelas ruas da cidade usando chapéus que encomendava do Rio de Janeiro. Por algumas vezes a invejou, não por sua elegância, mas pela liberdade que desfrutava depois que o marido empacotou. Ao tocar suas mãos, que estavam tradicionalmente cruzadas sobre o peito, as sentiu quentes, como se a velha ainda vivesse. Aproximou o rosto da boca da defunta e nem um vaporzinho sentiu, buscou um copo que também não embaçou ao ser posto perto do nariz.
O calor que o corpo exalava, como uma recusa à morte, lhe comoveu. Berenice se debruçou sobre o caixão, pronta para derramar suas raras lágrimas, mas antes que a primeira gota lhe brotasse às vistas, viu sua mãe, Dona Alzira, subir as escadas do alpendre. A velha era forte e sabia de todas as coisas da vida, vinha altiva e digna de seus cabelos brancos. O chorou não veio. Pensou: “é para essa que chega que irei chorar, queria Deus que daqui a muitos anos”.
“Ledinha subiu. Foi encontrar o velho dela. Quando eu encontrar o meu velho, vou lhe dar um abraço tão forte que vou quebrar suas costelas”, disse a matriarca enquanto beijava a filha.
Chegaram também duas irmãs Aparecida e Zilda e seus respectivos maridos. Cida foi logo para o caixão, chorou, chorou e chorou…
“Por quê? Por que, meu Deus?”, dizia por entre as lágrimas.
Zilda torceu o nariz. Não quis nem ver a cara da falecida e em resposta ao chororô da irmã soltou:
“Porque já estava passando da hora dessa inconha morrer!”
“Respeita a alma da falecida”, ordenou a mãe. “Deixa sua irmã chorar, isso chora por qualquer história”.
Os cunhados primeiro atacaram o lanche que estava escondido na cozinha, depois foram para um boteco em frente beber alguma coisa que valha.
“Será que a velha deixou algum testamento?”
“Se deixou foi para Berê. Não sei como ela conseguia cuidar daquela merda. Ô velha dos infernos. E olha que nem era parente. Cunhado não é parente. Não se ofenda”.
“Se eu sou seu cunhado, você também é meu. Cunhado começa com cu não é à toa”.
Riram e tomaram mais uma. Com a cabeça feita, voltaram para o velório. Mais parentes tinham chegado. A noite caía, os meninos corriam para lá e para cá. As mulheres estavam no alpendre, Aparecida trocou o choro pelas gargalhadas que dava ao ouvir as histórias que a irmã Naná contava. Quem passava na Rua do Tabuleiro, em frente ao número 743, dificilmente acreditaria que ali um corpo era velado. Os homens ocupavam a cozinha, falavam dos porres, do trabalho, de mulher. Carlos e Geraldo se cumprimentaram com um aperto de mãos, o que deixou a Dona Alzira tão feliz que ela se esqueceu de que Leda estava morta. Na verdade, todo mundo já havia esquecido que aquilo ali era um velório.
Aos poucos o cansaço foi tomando conta dos presentes. A maioria tinha enfrentando mais de trezentos quilômetros de estrada. Com medo de ficar sem cama, os mais espertos foram procurar um canto sem se despedir. Quando já não havia mais camas, apareceram colchões. Berenice, que conhecia bem a família que tinha, deixou o seu quarto trancado, resguardando o leito para si e para sua mãe. Sobraram só as duas e os meninos do Marquinhos que conversavam no alpendre.
As pernas de Dona Alzira estavam inchadas pela viagem e por ter andando mais que o normal.
“Vamos dormir, mamãe”, propôs Berê.
“Já vou. Só vou dar ordem aos meninos”.
Foi até a porta e os chamou:
“Julinho e Marcelinho, venham para dentro que vou trancar a porta”.
Os meninos entraram.
“Vó, onde a gente vai dormir?”
“Vocês não vão dormir. Vão ficar aqui vigiando o corpo”.
“Vigiando pra quê?”
“Pra o lobo não roubar”.
Berenice foi a primeira a acordar. Fez um café bem forte, colocou os seus colares e brincos e acendeu um cigarro. Depois, levantou Dona Alzira, pois estava na hora de tomar o seu remédio de pressão.
Às sete da manhã, todos estavam prontos para o cortejo fúnebre. O corpo foi posto em um carrinho que seria empurrado pelos homens da família até a igreja, para missa de corpo presente, depois seguiriam para o cemitério.
Antes de iniciar a caminhada de aproximadamente dois quilômetros, todos se juntaram no alpendre. Berenice que já estava no portão, pode ver toda a família unida e pensou: “esse foi o melhor velório da minha vida”.

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