Robert de Andrade

Que saudade do general

Até pouco tempo, ouvia pessoas reclamarem do excesso de propagandas nas revistas, pop-ups em portais da internet e comerciais na TV. Hoje em dia ainda reclamam, mas não com tanta frequência, mesmo com a ardente proliferação do merchandising. A insistência dos anúncios nos leva a aceitá-los, como a um parente inconveniente que vem para passar o fim de semana em nossa casa e nunca mais vai embora.

O inebriante poder da mídia transformou tudo em publicidade, dos assassinatos em série à inútil intimidade das celebridades do momento. As previsões apocalípticas anunciadas por George Orwell, no romance 1984, estão em sua mais intensa manifestação. No entanto, este cenário aparece opaco diante de nossos olhos, por vez, anestesiados pela falta de discernimento.

A comovente reportagem sobre o jovem que invadiu a calçada em alta velocidade com o carro importado do seu pai, fazendo dezenas de mortos e feridos, imediatamente dá lugar ao comercial de um automóvel de luxo, onde são enfatizados os seus itens de segurança. E assim vamos comprando de volta, a um preço bem salgado, nossas desgraças.

Enquanto muitos daqueles que lutaram pela liberdade de expressão em nosso país, se debatem em seus túmulos ao assistirem a sociedade trocar o livre-arbítrio pelo culto ao supérfluo e a celebração da tragédia pós-moderna, aqueles que ainda estão entre nós parecem sofrer da Síndrome de Estocolmo, acatando cegamente às ordens da grande mídia.

Não é o controle totalitário que irá nos livrar da iminente queda do abismo.  Já vimos do que é capaz um governo ditatorial ao fazer uso de aparatos midiáticos, como Goebbels e a propaganda nazista.

Mas também é sabido que o povo que não escolhe os seus líderes, acaba sendo dirigido por quem primeiro hasteia sua bandeira. E muitas vezes esse parece ser o melhor caminho. Ele torna aceitas nossas pequenas corrupções, pois além delas não conquistarem espaço nos jornais, parecem ainda menores ao serem comparadas aos Watergates brasileiros.

Além de tudo, esta epidêmica falta de bom senso tem levado figuras ignóbeis a sentirem saudade do general. No fundo sabemos que elas sentem a falta mesmo é do velho cala boca, afinal já não suportam ouvir o som da sua própria voz.

 

Robert de Andrade

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