Fábio Almeida

Banalidade do mal*: “big-brother”

 Eu tinha apenas 11 anos, naquele tempo, ficavam em torno do Parque Municipal (B. Horizonte-MG), ‘camelôs’ vendendo coxinhas, churrasquinhos de carne, linguiça… e outras coisas.

Seguidamente, apareciam por lá, os Fiscais da Prefeitura e até viaturas da Polícia Militar. Às vezes tinham agressões físicas por parte das autoridades. Lembro-me que numa dessas abordagens, o fiscal chutou a ‘banca’ do vendedor, os produtos ‘voaram’, e ele ficou parado, assustado, entre triste e decepcionado, todo salpicado de molho de pimenta.

Ainda criança, presenciei muitas brigas de meninos, e me posicionava de acordo com a simpatia maior para um ou para outro, nunca procurava saber ao certo, qual era ou quem tinha a razão na pendenga. Mas naquele dia, no Parque Municipal, senti uma coisa muito ruim, pois também fiquei assustado, e não soube me posicionar: fiquei com um grande sentimento de piedade para com o vendedor, mas era criado ‘sob o signo do medo’, e tinha uma noção de que os fiscais estavam cumprindo com suas obrigações.

Em 1972, os FISCAIS DA PREFEITURA ERAM ADOLF EICHMANN, estavam cumprindo ordens.

 Quando trabalhei com vendas, fazia parte do meu trabalho cobrar de clientes inadimplentes. Já tomei ‘calote’ de ‘gente safada’, consegui resolver pendências difíceis a contento de empresa e clientes. Numa dessas vezes, um casal que trabalhava na ‘colônia’, como se diz no sul do país (zona-rural), resolveu vender tudo e montar uma loja na cidade. Compraram-me muitos itens, mas a falta de experiência fê-los ‘quebrar’ rapidinho.

Tentei cobrá-los várias vezes, mas vi que não tinham mais condições de pagar. Então a empresa sugeriu que eu ‘pegasse’ bens particulares deles, e o cliente aceitou a proposta. Fui a minúscula casa onde estavam morando, com o propósito de pegar pelo ao menos a TV, ou o que mais desse para cobrir a dívida. Mas quando cheguei lá, vi a esposa do cliente com um pequeno filho no colo, assistindo a televisão na hora do almoço…

  De outra vez, um cliente que devia uma ‘boa’ quantia à firma que eu trabalhava, havia sido assaltado em sua empresa, tomou um tiro na cabeça, mas conseguiu se safar, mesmo tendo um ferimento grave. Mas em seguida, as coisas começaram a desandar e ele acabou ‘quebrando’, porém, sempre sincero comigo, também fez-me uma proposta de entregar alguns tipos de mercadorias (prateleiras, mesas…) em forma de pagamento.

 Lembro-me que nesses dois casos, permiti-me agir como JUIZ. No caso do casal, foi mais fácil (ou mais difícil?), o sentimentalismo veio antes da razão, e não pensei duas vezes antes de abrir mão de retirar algo deles. Com o cliente que havia levado tiro, pensei e ponderei, lembrei-me que além de tudo, ele já havia dado muito lucro para empresa que eu trabalhava, e eu mesmo, me beneficiei muito com as vendas que havia feito para ele. Enfim, também não cobrei.

 Naqueles momentos, EU NÃO FUI ADOLF EICHMANN, mas tenho plena consciência: NÃO SOU ANJO.

 Na verdade, isso não aconteceu só comigo, acontece todos os dias, com todos os tipos de pessoas, em todas as áreas e setores da vida: trabalho, família, outros círculos sociais…

 É isso que a filósofa política HANNAH ARENDT (1906-1975), colocou de forma brilhante: O MAL SE BANALIZA QUANDO PRATICADO SEM NENHUM QUESTIONAMENTO, PROTEGIDO PELO ESCUDO DO DEVER, OU OUTRO ESCUDO QUALQUER (COMODIDADE, DIVERTIMENTO, INFORMAÇÃO, IGNORÂNCIA, OMISSÃO… 

 Big-Brother

  Está começando mais um ‘big-brother’. Muito, mas muito dinheiro mesmo, muitos interesses, envolvem esses tipos de programas. Grandes empresas de todos os segmentos envolvidas. Profissionais criam, trabalham em programas assim, alegando que faz parte da profissão.  Quanto ao RESULTADO SOCIAL… como diria Adolf Eichmann: apenas cumpria com suas obrigações profissionais.

 NÃO ASSISTO E NÃO VOU ASSISTIR AO “Big-Brother”, PORQUE ACREDITO QUE ASSISTINDO, CONTRIBUO DE ALGUMA FORMA, PARA BANALIZAR O MAL.

 * Banalidade do Mal

                                                                                                                 Fábio Almeida 

 

P.S.:

 “A gente não tem que ter preconceito em relação a nada na vida. Mas é importante ter um critério de valor. Você precisa estabelecer limite para tudo.”                                                 

 “Se ele (…) não faz parte do meu convívio, então não faz parte da minha vida.”

                                                                                Gabriela Alvez – Atriz brasileira

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