Robert de Andrade

Palavras perigosas

 “Nada temos a temer, exceto as palavras”

Rubem Fonseca

 Nietzsche já dizia que o problema da humanidade é gramatical, no livro A genealogia da moral, ele vai à raiz de palavras como “moral” e “deus” e analisa o processo de significação e re-significação pelo qual elas passaram ao longo da história. Numa perspectiva peirceana, pode-se dizer que o interpretante do signo deus, já não tem nenhuma relação o objeto de origem. E ao falar em objeto surge outra questão: é muito fácil compreender objetos figurativos, por exemplo, uma árvore. Por mais que o seu interpretante seja variável, afinal existe uma infinidade de espécies de árvores, nós temos a referência visual registrada em nossa memória, de maneira que se torna simples descrevê-la. Porém, quando o objeto de um signo é abstrato, por mais que cheguemos a um interpretante embasado em imagens, como imaginar um beijo ao ouvir a palavra amor, essa compreensão é vaga, pois descrever o amor como sendo um beijo não satisfaz nossa necessidade de compreendê-lo. E enquanto Russell e Gottlob Frege querem preencher o vago buscando uma teoria exata da inexatidão, a sociedade, e principalmente as classes dominantes, trata de materializar a vagueza de certos termos abstratos. Dessa forma podemos ver deus esculpido em Carrara, ou pintado por Michelangelo; os pecados mais graves passam ser associados à morte na fogueira ou um enforcamento em praça pública; o inferno é materializado no holocausto e em outros massacres; o poder pode ser tocado e feito de um metal dourado e relativamente raro ou cédulas de papel moeda; e assim por diante. Mas acontece que a sociedade vive se deparando com palavras vagas e sem referência, por exemplo, a palavra defenestrar, que também despertou o interesse do escritor Luís Fernando Veríssimo. Os europeus, principalmente os do leste, ao ouvirem a palavra possivelmente serão remetidos as históricas defenestrações de Praga, a primeira em 30 de julho de 1419 quando os partidários do reformador da igreja Jan Hus, nessa época liderados por Jan Zelivsky, jogaram pela fenêtre os membros do conselho da cidade por não libertar prisioneiros hussitas; depois em 1618, no início da guerra dos trinta anos, quando os representantes de Fernando II foram atirados pelas janelas do palácio Real de Praga. A palavra era pouco conhecida no Brasil até que nossa, organizada e progressiva, sociedade decidiu dar um uso para ela e de tempo em tempo pessoas são arremessadas pelas ventanas; mas isso só deve durar até o povo se acostumar com o termo.

Robert de Andrade

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