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LYNCH E O ESTRANHO

Há quem diga que David Lynch é incompreensível. Acontece que filmes como Eraserhead e Cidade dos sonhos necessitam de uma visão de cinema mais apurada do que um filme de fórmula pré-estabelecida. Não critico aqui tais películas comerciais, pois admito serem demasiado importantes para a formação de um cinéfilo qualquer sessão da tarde ou cinema em casa. Antes de maldizer o cinema comercial, observe sua história de vida e verá que sua visão de mundo perpassa Bingo e Lagoa Azul; sendo que aos 5 anos, ninguém admira Antonioni ou Bergman. Além do mais, entretenimento se faz presente em certas ocasiões onde a paciência não permite Godard ou Truffaut, ou simplesmente queremos diversão e escapismos.

Enfim, voltando, podemos dizer que Lynch é um autor. Definimos cinema de autor onde o diretor, em sua filmografia, acaba por imprimir seu mundo interno em conteúdo e/ou estética de seus filmes em detrimento ao apelo comercial de estúdio. Claramente, não limito alguém a autor ou não – há diretores extremamente pessoais que fazem filmes, em parte, comerciais. Continuando, Lynch teve origem nas artes plásticas e contemporânea.

Em seu primeiro curta Six Figures Getting Sick, seis cabeças vomitam seis vezes. O chamado bizarro, ou estranho, se faz presente nas raízes do cineasta. David Lynch é um diretor dos sentidos e do inconsciente reprimido – na maioria de seus filmes não é encontrado facilmente uma lógica narrativa que explique os fenômenos ali apresentados, tampouco é feito para chocar. O universo do autor se constitui de estranhezas para nós, mas, se faz lógico e belo para si mesmo. Choca e incomoda, se torna incompreensível para quem racionalmente tenta compreender o diretor, ao invés de acompanhar sinestesicamente o que lhe é proposto.

Após Eraserhead, o diretor é convidado para dirigir O Homem-Elefante. John Merrick foi uma pessoa real da era vitoriana que sofreu de uma doença degenerativa que o deformou. Matéria prima perfeita para o diretor que vê no estranho o belo. Não há julgamentos morais forçados no longa; há uma visão humana e compreensível na maneira como Merrick é retratado. Extrai-se, do bizarro, o belo, sem tomar o rumo fácil de clássicos como A bela e a fera. O contexto é muito mais complexo do que simples contos de fadas.

O cinema de David Lynch incomoda porque somente estranhamos o que nos é familiar. O estranho habita o interior e freqüentemente se revela de forma inquietante; é parte integrante e inconsciente da formação do eu da qual não temos acesso fácil. Talvez por isso, quando tentamos apreender o conceitual de Lynch em seus filmes, ficamos só na estranheza e incerteza de que, no fundo, somos estranhos nós mesmos.

Douglas Lisboa

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