Robert de Andrade

mon cher flâneur

Há um momento na vida do homem em que ele deve deixar de atirar para todos os lados e mirar um único objetivo, algo mais maduro, seguro e menos idealista. O momento do meu caro Flâneur também chegou. Ele, sempre acostumado a mirar a lente da sua Pentax para todos os lados, agora se sentia perdido. Um paradoxo: quando os caminhos imagéticos de sua “errância” pela capital belorizontina multiplicavam-se desenfreadamente, mesmo ao refazer velhos itinerários, a plasticidade da cidade era frenética e impreterivelmente inédita; e, ainda assim, era calmo e reconfortante tomar um “pingado” em pé no balcão do Café Nice, em meio ao fluxo ininterrupto de pessoas, nas imediações da Praça Sete. Por outro lado, concentrar-se em um único alvo apenas, sem olhar para o lado, sem tentar descobrir como as pernas dos fregueses do “Pelicano” se comportam quando estão ocultas sob a toalha da mesa, e em vez disso pensar unicamente em ganhar mais dinheiro, significava perder-se no excesso de objetividade. Entretanto, meu amigo Flâneur não teve a sorte de viver de uma pensão vitalícia como Baudelaire e poder fazer da vida um permanente exercício de flanar por Paris.  

Sem escolha, foi para o interior, não com a intenção de desbravar a nova terra, mas extrair dela o sustento da família. A mulher buscava paz e mais estabilidade e ele juntar dinheiro para um dia voltar a fazer o que mais o aprazia. Quando deixou de se interessar pelos pormenores cotidianos e concentrou-se no vil objetivo, os males que acometem os seres metropolitanos, que antes até serviam de enquadramento na lente de sua câmera, agora começaram a persegui-lo, mesmo na pacata cidade onde trabalhava na administração de uma grande empresa. Primeiro, foi acusado injustamente de desvio de dinheiro. Depois, vieram as intrigas com os colegas de trabalho e, como se não bastasse, uma paixão tardia por uma moçoila quinze anos mais nova. Era disso que ele ria antes, como se seu interesse pelas pequenas coisas o deixasse imune aos problemas que os homens cegos tratavam de inventar para aumentar suas contas bancárias e poder sonhar somente com a imensidão das conquistas capitalistas.

Já não usava mais as frases de efeito de Che Guevara, e tampouco gastava um décimo do salário na aquisição de um livro-álbum de Sebastião Salgado, ou uma coletânea inédita dos Rolling Stones. O máximo de sua extravagância financeira eram as idas ao motel com sua nova menina. E ele nem mais se recordava como era amar por completo, mesmo que fosse por um instante apenas. Antigamente, era capaz de se comover ao ver uma ratazana lutar com um gato por um resto de comida qualquer na Rua São Paulo, esquina com Santos Dummont. Agora, seu voyeurismo limitava-se a fixar os olhos nos ponteiros do relógio à espera da hora de ir trabalhar, ou a esperar, de novo, pelo momento em que lhe sobraria um pedaço hora para trocar umas breves carícias com sua namorada, esperando, ainda, a hora de voltar para casa para ver se sua mulher dessa vez iria suspeitar de algo, e esperar o fim do mês para receber, e esperar o tempo lhe dar uma trégua e a vida, mais uma chance.

Mas nada, nem o filho por chegar, nem a tranqüilidade enigmática que a esposa assumira ultimamente, nem o furor da nova paixão, nem o aumento de salário, nem a perspectiva de uma velhice segura, nada, nem tudo junto, era suficiente para acalmar seu coração. Um dia entrou no banheiro do trabalho em busca de um abrigo longe dos seres humanos e ao se olhar no espelho, em vez de ver sua gravata, que para ele um dia fora prerrogativa de status e respeito, viu uma forca apertando-lhe o pescoço, pronta para ser acionada. O ar escapou-lhe, por um átimo suas vistas ficaram turvas e ele pensou que fosse desmaiar. Não foi fácil passar pela estreita janela do banheiro. Pegou o carro e foi para casa, mas quando chegou à sua rua, passou direto e seguiu em direção à casa de sua namorada, no entanto, distante alguns metros de chegar, descobriu que também não queria estar com sua amada. Continuou a dirigir sem saber ao certo para onde estava indo, era como se fosse levado pelo carro. Três horas mais tarde, ele estava em frente ao Parque Municipal de Belo Horizonte e já que estava ali, resolveu abraçar uma árvore, não uma árvore qualquer, mas aquela que ainda trazia cravada no troco as iniciais do seu nome e de uma namora cuja lembrança lhe era vaga, mas isso já não mais importava.

Robert de Andrade

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